quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Se antes tinhamos o vapor, depois a eletricidade, passamos pelo petróleo, o conhecimento,.. chegamos à ela: A memória, nossa "nova-velha" commoditie.


Não vi os filmes que queria, não li os livros que pretendia, não fui às peças de teatro que desejava, perdi muita coisa na TV, deixei de ver amigos e parentes, balanço de fim de ano é uma grande merda. A gente olha para trás e vê tudo o que não fez. Como se tudo que não fizemos fosse mais importante do que aquilo que fizemos.

E em geral é, mesmo.

2009 se vai sem deixar saudades. Como todos os outros anos. Para lá na frente olharmos de novo pelo retrovisor e sentirmos saudades deste e de todos os outros anos. Filosofar sobre um ano que acabou é outra grande merda.

O que de bom ou especial aconteceu em 2009? O mundo se afundou numa dessas crises econômicas que ninguém entende direito. Houve terremotos, enchentes, acidentes aéreos, guerras, assassinatos, golpes de Estado, nada que outros anos não nos tenham oferecido, também, com sua dose paquidérmica de crueldade - que só nos faz pensar que este planeta não é exatamente o melhor de todos para se viver (leia-se Avatar).

Mas é o que temos. Não é grande coisa, mas é o melhor que pudemos fazer. Nós, "humanos" (e aspas bem grandes aqui) na condição a là Hannah Arendt somos todos assim mesmo - imprestáveis, cheios de vazios por dentro, ansiosos por isto e aquilo que é novo, exótico ou simplesmente diferente (diferente mas bem distante, que fique bem claro!) e damos à isto o nome de ego, ou (na sociedade do capital privado) individuo "bem sucedido", pois seriam estas contingências as forças motrizes para nosso "self-development".

Um olhar otimista, sem dúvida. Se isso é o melhor que pudemos fazer, somos uns fracassados. Nossas vidas são feitas de pequenas alegrias, instantâneas e fugazes, e dores intermináveis. "Tristeza não tem fim, felicidade sim". A história da humanidade pode ser resumida nessa frase. Ninguém precisaria escrever mais nada.


Me pedem para "destacar fatos marcantes" de 2009. OK, isso é fácil. O primeiro negro a assumir a presidência dos EUA. A morte do astro pop. Rio 2016. Recordes de Bolt, o homem mais rápido do mundo. Recordes do Cielo, o nadador brasileiro mais rápido do mundo. O piloto de sobrenome famoso que bateu o carro de propósito. O jogador de golfe que escancarou seus dramas pessoais. A luz que acabou. Os atores, locutores, atrizes, antropólogos, cientistas, atletas que morreram. É fácil fazer uma lista, também. Basta ir ao Google, este novo Grande Irmão, que tudo vê, tudo sabe.

2009 foi um ano assim. Tudo vimos, tudo soubemos. Por isso foi tão ruim. Seria tudo tão melhor e mais fácil se nada víssemos, se nada soubéssemos.

Mas estamos conectados 24 horas por dia, não? É um caminho sem volta. Mesmo quando não queremos saber de nada, alguém vem e nos conta. Alguém fotografou. Alguém filmou com o celular e colocou no YouTube. Vivemos numa era em que todos contam tudo a todo mundo o tempo inteiro. Vive-se a vida dos outros. Eu queria que o Lombardi não morresse, por exemplo. Ou: não precisava saber que o Lombardi morreu. Fazia tempo que não ouvia o Lombardi ler os números da Telesena, provavelmente nunca mais ouviria, estava bom assim, eu queria morrer achando que o Lombardi ainda lê os números da Telesena. Seria reconfortante.


Eu queria morrer vendo Kung Fu (leia-se David Carradine) no videocassete e ser capaz de afirmar que esse cara é um grande artista. Queria morrer vendo episódios antigos de Barrados no Baile, para achar que a Brenda Walsh nunca deveria ter saido da série. Queria morrer viajando num Fiat Uno para dizer que o cara que criou esse carrinho é um gênio. Queria morrer escutando o Physical Graffit para garantir a quem quisesse me ouvir que o Led Zeppelin, à epoca, eram maiores que todas as bandas de hoje juntas.

Queria morrer dizendo os verbos no presente, mas a cada ano que passa, eles vão para o passado. E eu vou ficando, cada vez mais só num mundo que não é legal, não. Que 2010 "venha de galera" e traga melhoras... Por enquanto tá foda!

Falando em galera, teve uma que se juntou outro dia e tá quebrando tudo: Josh Homme, guitarrista e vocalista do Queens of The Stone Age; Dave Grohl, líder do Foo Fighters (que acaba de lançar sua primeiro coletânea) e ex-baterista do Nirvana; e John Paul Jones, que foi baixista da lendária Led Zeppelin e Alain Johannes (Eleven), que participa dos shows como convidado especial) - o nome do supergrupo é Them Crooked Vultures.

Supergrupos, termo criado nos anos 60 para definir projetos paralelos reunindo roqueiros já consagrados, sempre hão de pintar por aí, mas poucos como o sensacional Them Crooked Vultures (algo como Os Abutres Tortos), cujo primeiro e homônimo álbum já saiu no Brasil, não é apenas um dos melhores discos de rock'n'roll da temporada 2009, mas de toda a década.

O álbum The Crooked Vultures traz 13 canções. Canções como No one loves me & neither do I, Mind eraser, no chaser, Dead end friends, Elephants, Scumbag blues e Caligulove (esta duas, flertando com a música negra) são clássicos instantâneos. O resultado é uma poderosa liga de suas bandas anteriores, com canções melódicas, vigorosas e perturbadoras, meio psicóticas - até pelas letras sobre luxúria, amores desfeitos, sadomasoquismo, discriminação... Tal como nossos tempos "mú.dernos"!!! Escutem sem moderação... (click aqui para baixar)


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